quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Oceano Fechado




A nadar sobe a lua

E ardem os meus pés

Tudo melhor se for irreal

Muito pior se rimos de nós.

Gaivotas desejam peixe sedentário

O Coral é a baleia aos olhos nocivos

A pedra,

O marco que divide o mar

A lua, incitante indomável

O vapor de sal toma rumo no ar.

E o ar se espreme

entre as moléculas molhadas

É o desejo da maioria,

O fluxo da correntes

Numa imensidão externa,

Em imersão eterna

Imprevista,

e crescente

Engolindo a terra.


segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

As coisas são
Como não deveriam ser
Um estado



A arte desejada
Sai de fora
Para dentro
Inimputável



Preto: branco
Janela: sonho
Sonho preto: aflição diagonal
E assim vai
Não reto


O peso do argumento
Agressor
Preferível as formas
E as coisas como elas não são.



terça-feira, 24 de novembro de 2009

Coito



Te levando ao topo

Ao requisito de mais libido

Escolto teu sexo à ebulição

Em fervor de suor vivo

Me escorrego pela contração

Amando e vivendo tuas partes

Desejando a lascívia do hálito

O cheiro expresso do divino

Pondo-me junto de ti

Ansiando o toque do perfeito

O ato do tato mais devasso

Um calor interno das coxas

O arrepio instintivo de corpo doado

Repentino como o atrito dos músculos

O encaixe engrenado dos opostos

No subterfúgio do raciocínio da mente

Recebendo teu gozo puro de insanidade.


terça-feira, 10 de novembro de 2009

A ÁRVORE DA SERRA




- As árvores, meu filho, não têm alma!

E esta árvore me serve de empecilho...

É preciso cortá-la, pois, meu filho,

Para que eu tenha uma velhice calma!



- Meu pai, por que sua ira não se acalma?!

Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!

Deus pôs almas nos cedros... no junquilho...

Esta árvore, meu pai, possui minha'alma!...



- Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa:

"Não mate a árvore, pai, para que eu viva!"

E quando a árvore, olhando a pátria serra,



Caiu aos golpes do machado bronco,

O moço triste se abraçou com o tronco

E nunca mais se levantou da terra!
 
 
 
Ausgusto dos Anjos

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Ponto

No ponto,
aponto
num ponto,
e desponto.



Daniel Monteiro

sábado, 26 de setembro de 2009

Pradarias Invisíveis

Pelo sonho caminham os peixes
O chão úmido refletia o sabor do abismo
O líquen respirando papoulas murchas

Seria a criança o limite da regalia?
Seria o carnaval a transparência dos tolos?
Viria a morte ao encontro do orgasmo?

Na geologia do pensamento há respostas
Contestadas pela célula morta
Deixadas de molho em mangue opaco
E esticadas para secar no trópico das bestas tinhosas



Onde se encaixam as pradarias invisíveis?
No mundo complexo dos cegos
Onde o âmago da vulva é tangível
E o concreto é feito de nuvens
Compartilhando o mesmo chão que os peixes
Sem tropeçar.


Daniel Monteiro

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Perfume Exótico

Quando eu a dormitar, num íntimo abandono,
Respiro o doce olor do teu colo abrasante,
Vejo desenrolar paisagem deslumbrante
Na auréola de luz d'um triste sol de outono;

Um éden terreal, uma indolente ilha
Com plantas tropicais e frutos saborosos;
Onde há homens gentis, fortes e vigorosos,
E mulher's cujo olhar honesto maravilha.

Conduz-me o teu perfume às paragens mais belas;
Vejo um porto ideal cheio de caravelas
Vindas de percorrer países estrangeiros;

E o perfume sutil do verde tamarindo,
Que circula no ar e que eu vou exaurindo,
Vem juntar-se em minh'alma à voz dos marinheiros.




Charles Baudelaire

domingo, 9 de agosto de 2009

Cana lírica

Me embebo
Me abasteço
Me enveneno.

O engenho é doce
Altiva a colheita
Poderoso o efeito.

Ardido como o sol
Libertino é certo
Abrindo o ponto de fuga.

Daniel Monteiro

segunda-feira, 3 de agosto de 2009



                                 Repartição pública fascista em Nápoles, ano 1936.

Pública


Vou publicar sobre putas
Todas as que amam clientes
Salafrárias carentes
de passarinhos políticos

É público bem como
O chamado do mendigo amarelo
Despovoando a rua abrupta
O chão seu lar, a comida crua.

Impureza chata, ingrata, sem graça                         
Não transmite nenhuma doença limpa                               
E o que se cura com a verba da massa?
Nada.

E mais público que esgoto não há
Taxado humanamente como não
Visando a engorda da república
Que acumula propinas e varizes
Também públicas
Como a via em que andamos.


Daniel Monteiro