sexta-feira, 23 de julho de 2010
quarta-feira, 19 de maio de 2010
quarta-feira, 5 de maio de 2010
Colhendo merdas numa tarde ensolarada
Eu, num momento só, minha pá bipolar em punho com a vassoura noutro braço, iniciei o recolhimento de merda canina, e prefiro desde sempre recolher merdas caninas. É um trabalho interessante e de interesse comum. Interessante porque se pode desenvolver assim novas habilidades olfativas e artísticas, entrando em contato com a imaginação escultural de cada peça defectiva e com os odores peculiares que cada uma leva. De interesse comum justamente porque ninguém que conviva com os sapecas animais deseja sentir odores insuportáveis ou desviar com saltos esguios o produto final da ração. Pode parecer indigno e quase nada vantajoso recolher tais excrementos, mas é aí que se revela a nobreza do ato receoso. Exatamente porque a maioria das pessoas detestam ter que lidar com suas próprias atividades fisiológicas, pelo asco pessoal que adquirem da própria raça, crêem que seria muita mediocridade e rebaixamento limparem bostas cachorras. Mas essas bostas são muito melhores do que a nossa, sem toxinas e podridão. Experimente defecar no chão e deixar lá por um dia, vai preferir que fosse de cães. Vai ver então que limpar coco de cachorro é mais digno do que você mesmo cagar na privada e gastar vinte litros de água. E ainda dá pra fazer adubo. Limpe a merda de seu cão com empenho e simplicidade, e sairá com o sentimento de missão cumprida.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Guardador de Rebanhos
XXXIX
O mistério das cousas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o único sentido oculto das cousas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: –
As cousas não têm significação: têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.
Alberto Caeiro
O mistério das cousas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o único sentido oculto das cousas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: –
As cousas não têm significação: têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.
Alberto Caeiro
sexta-feira, 9 de abril de 2010
NUDEZ OBLÍQUA
É um desejo que temos idealizado
Desnudar o pudor deliciosamente
Tornar públicas as genitálias
Há verdade nisso
Demonstrando a realidade das nossas formas
O ímpeto do nosso corpo ferramenta
Vê-se o quão simples é a animalidade
A curva do vento nas ancas
Mas a praxe oculta a grande ânsia
O tabuzinho esdrúxulo do encobrimento
Porque tememos o nosso nudismo
Mas amamos assistir o alheio
Morrer com gosto é morrer sem roupa
Como quando irrompemos do útero
Pelo prazer copular somos bem vindos pelados
No auge a arte aplaude todo o contorno
Nus vamos ao nosso próprio encontro
À crua singularidade em natureza
Assim tudo é feito com majestade
No clímax do estado vital.
terça-feira, 2 de março de 2010
sábado, 20 de fevereiro de 2010
O APOCALIPSE SAGRADO
Foi-se o dia em que os impérios se inclinaram para um fundo grotesco e lúgubre. Todos os dias do calendário cristão as pessoas sussurram melodicamente seus apocalipses retro-privados. E aleatoriamente vão se somando as pequenas tempestades em copo d’água. O mundo vem se tornando, contra própria vontade, um exemplo medíocre com ínfima participação no ensaio do cosmos atemporal e cíclico. Como realmente vêm se provando que o cosmos é. Conclaves de raças desmantelam-se umas sobre as outras sob a doutrina da ordem do mais arguto. Ou pré-dominante. E o palhação de sorriso-mescalina observa a impaciência do domador em amansar o leão torpo, mas muito honrado.
As taigas tristes latejam na superfície da terra, animadas com o bocejo do sol arfante. Ao final de cada dia, plânctons libertinos deslizam pela margem do pensamento, dando vida à monotonia branca do degelo. Com a chegada do crepúsculo, uma chama alabaredada, oriunda da tarefa lasciva de homens, abafa-se com o borrão do negrume. Corpos movem-se no breu, e as ações da noite não têm nada de anormal, mesmo que muito embora não se possam prever as suas repentinidades incisivas, provocando daí um agrupamento de escarcéus. Ficou estampado diante dos globos oculares que a natureza deixou de ser tão natural. Tais cataclismos da contemporaneidade se deram de fato com a semeação da raça sapiens, a colheita sendo um devastador gorfo ressacado e doente da Deusa-Mãe. Eis a pior das pestilências. A boçalidade humana.
O genoma do magma especula suas bolhas sísmicas. O arrastão cultural dos colossos midiáticos se aperfeiçoa em calamidades circenses. A patifaria reelege-se virtude dos burgos. E eles, no mais profundo de suas vergonhas, enojam-se de si próprios por não comporem a legitimidade do povo, uma vez que a cultura original vem dos reprimidos, nunca dos repressores. Uma imundice degenerativa atola o pensamento dos homens dominantes, e a massa estúpida qualifica toneladas de lixo para entulhar a saúde do globo. Vendemos a biosfera numa bula antibiótica. Patenteamos uma planta – inconcebível tal ato - e compramos parcelado nosso próprio lugar onde cair morto. Enquanto catadores de lixo egoístas demarcam sua área de exploração nos aterros sanitários. Triste, mas é o ciclo.
Rapinas de ferro fundido transcendem rasantes pela Gomorra pluriluminar. E o mundo corporativo vende drogas para comer, e mais, como se fosse um produto de primeira necessidade, vende drogas para morrer. Outros as querem para ficarem eufóricos, outros para ficarem mais valentes, e outros ainda para adiarem suas mortes. Há leis que proíbem parir crianças por acidente. E há leis que permitem matar pessoas propositalmente.
O pensamento livre ficou achatado, comprimido em publicidades de baixo teor alcoólico. A política tornou-se esbaforida, uma vez nunca excretada sua polpa embolorada. O ativismo se transformou num lucro hipócrita. O sexo vive o insaciável, e os animais selvagens se esvaziam em seus nichos, sob os olhos das lentes do poder.
Ninguém mais é senhor de si mesmo. As classes são propriedades, e os homens, ousados e pérfidos, acreditam que podem sublocar o solo, e se prestam a documentos feitos duma própria árvore senhora da Terra, para legitimarem sua posse. Obsceno. Irrefutável. Não são donos nem do solo onde foram enterrados. O homem da atualidade tenta reverter o processo natural de nunca se levar nada da vida após a morte. Ele quer, e pretende entupir e socar ego abaixo os seus bens, expô-los na dimensão exterior reafirmando assim seu caráter e o fim em si mesmo. Focando essencialmente a autoridade do poderio. E Ignora ser bem de si próprio, e unicamente isso.
A raça dominante não compreende que obviamente também é uma partícula da natureza, e os animais irracionais participarão do Apocalipse sem terem culpa pela corrosão planetária. A terra é poeira na sua existência elíptica ao redor de uma estrela anã, invisível em vista de infindáveis planetas vivos pelo Universo afora. A mitologia do mundo é clássica na sua hermenêutica dos fenômenos terrenos, e unicamente faz sentido no imaginário tradicional da cultura primordial. O infinito não irá sentir falta do planeta terra. A mitologia real é cósmica, ancestral, original, se realmente no Tudo existe alguma origem, pois a reciclagem do vácuo é constante, atemporal, interminável.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Altruísmo e apoio
Suas virtudes primas
Grande madeira de androgia
Com encantos e estilhaços de luz.
Um objeto de ventura
De manuseio hábil
Com movimento delicado
Em elegante amparo.
Amor e Natureza há nele
Simplicidade, rigidez, verticalismo
É vegetal energia da magia
Poder longevo de ancestralidade.
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