quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Teatro de Espíritos



O movimento enérgico eu vejo.
Transparente ele é, invisível aos banais
Saído do exalar das coisas pequenas,
E eu prorrogo um pouco mais o meu erro.


Alcoólatras, executivos, ceifadores,
Amantes dos vícios não naturais,
Um incômodo na garganta, mas inesquecível.
Qual será meu fardo, dentro do meu destino?


Na corrente de corpos o pão se ganha,
No pilar da Instituição imponho minha remissão,
A fim de acalmar o pudor, bebericar meu líquido.
É a mesma hipocrisia das crianças,
Mas adulta, recheada de parâmetros.

Parem o horário de almoço, desfrutemos o que sente a célula.
Pontuando os pecados, vamos jogar com fé, sem vergonha.
Peça ao pombo cagão que plante um Jatobá,
Será mais útil que um homem, mesmo agricultor.

E os livros vão fazer sua história,
Xavier irá psicografar o além mundo,
A ponte será construída,
Engenheiros vão falir.

A verdade é que as etnias são a guerra interna do mundo,
Paz só se conhece na morte,
E os vinte e sete por centro de terra são o motivo, sempre,
Para o último tiro.

As Almas são para deuses, os corpos para médicos legistas.
Espíritos são para a Natureza, cadáveres para a terra.
A vocação das coisas é aparentar ter função,
Nunca pedi ao topo da cadeia para pensar tanto,
E tão alto.

Quem sabe a África não perdoa os macacos,
A engrenagem por sorte não esmaga a ciência,
Os homens quiçá amem as pedras como amam a si próprios,
E a dramaturgia não exista somente neste mundinho.


Daniel Monteiro

domingo, 23 de novembro de 2008

Novo Chão

O novo chão os pés não sentem
A sujeira não se acomoda
A reflexão é profunda

É como ficar sem base
Um vazio branco de retidão
Uma densidade sem relevo feito

Sua textura dá aflição
Com infinidade sem destino
Num andar solto pelo vácuo.


Daniel Monteiro

sábado, 8 de novembro de 2008

Cão Infiel





Era um cão uma vez desses infiéis
Não do tipo que não tinha dono
Ou queda por um outro alguém
Era dono dos tolos
Das vielas cravejadas de inimigos
Do chão por onde andavam suas patas
Fungador preferido do fundo das fêmeas
Valente na fuga
Com o bife almejado bem fácil entre os dentes
Esnobe de carrapatos
Seu lar no tapete do Planalto
Seu cheiro o fedor nobre dos caninos
Mas fugia dos carinhos
Não abanava rabo de graça
Cachorro louco das guaridas
Não castrado pelo instinto
E infiel
Um cão desses de rua
Filho da penumbra
Abolido de dono até os ossos.


Daniel Monteiro



quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Quarta Noite


Já tinha raspado do coito
e do arrependimento raspou
a esperança;
Fugiu de cá para lá
mas a dor branca
continua e está
Na morte eminente
de todos os dias
sonhava correndo
em ser rachado
Em quatro pedaços
(lascou a água no cimento)
(queimou o ar fedorento)
(semeou erva daninha em terra roxa)
(ateou chamas na cidade que também ardia)
como uma ferida fresca no frio.

Daniel Monteiro

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Jazida de Corpos

O planeta é como um resfolegante entreposto de carnes
Suam as artérias articulares da pelagem
Lambuzando o roçar das coxas animais
As vísceras expostas do instinto assediando o próximo
E o próximo molestando seu sexo público de passagem

O desejo espremido do abade
Reprime a sanidade arcana ao limiar do viço
E a forja do celibato tátil
Incute a pureza nua na vassalagem
Criando o mal devasso no claustro


No tal montante das putarias
Alcovita quem quer gozo e corrimento

Coleciona genitálias a baixo custo
Angariando úteros na feira livre do crepúsculo


Antes fossemos como peixes num depósito de óvulos
Mas como somos encaixe de órgãos
Um roçar de músculos viscosos
Permanecemos pela transmissão universal
Alastrando epidemias galáticas
Numa núpcia viral

No entrebate tumultuado do núcleo urbano
Gavetas alvas conservam cadáveres um dia já quentes
Solos públicos acolhem moribundos etílicos
Ruas espremidas banalizam e indiferenciam
Os corpos andantes e mundanos do homem
Ofertando humanos num cardápio telefônico


Este é o mal carnal no limite do abuso
A podridão da proteína no clímax do atrito
Toda a reprodução sexuada pela delicadeza do vínculo
Nenhum corpo a sair ileso pela contaminação do submundo.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

CORAJOSO ESCARLATE

Bem pulsantes são as engrenagens do coração
Átrio, aurícula e ventrículo
Amantes de um bom sangue arterial
Jocosa é razão de tal batimento dinâmico
Tateando outro peito alheio encostado ao teu
Distribui as delícias da reposição orgânica
Bombeando o líquido venoso pelo ralo
Insaciável órgão-mor involuntário

Se chora bate, bate se sorri
Se brinca bate, bate se briga

Bombeia na mesura perfeita
Incessante de fé, prova da vida
Com um púrpura chamejante
Abocanha os sentimentos vividos
Para ele corriqueiros
Em bocadinhos
O tom de voz sempre mais alto que o da mente
Irrigado de nobreza
Muito embora entupido de ansiedade
E gostosamente irresponsável por natureza

Bate cansado, enérgico bate
Bate surpreso, traído bate

Movido pelo ímpeto e pela coragem
De amar aqui e acolá
Amor de mãe, de irmão ou de tesão
Rocha de carne inveterada
Infalível nos negócios do amor próprio
Com os corpos quentes dele dependentes
Amores loucos dele correspondentes
Caminhos tortos é ele inconseqüente
Provando num só tempo a rigidez e a fragilidade
A fraqueza e a caridade
Escondendo tristeza com felicidade
E bomba, bomba completando o ciclo interno
Mantendo o tal círculo dos assuntos externos

Com medo bate, bate com coragem
Bate com ódio, com amor bate

E enquanto estiver vivo
Coradinho,
O resto vive no seu ritmo.

sábado, 20 de setembro de 2008

Sujo é limpo

Vivemos dependendo totalmente da curiosidade
Sobrevivendo com o poder de morrer no êxito
E morrendo para ceder espaço aos noviços egoístas,
Pela balança humana favorável.
“Ohhhhh! Que lindo esse bebezinho amável!
Mas aquela mulherzinha arrogante é por demais enojante!”
Amamos porque somos mortais
E odiamos para felicitar a vida
ou facilitá-la
Num buquet moribundo de promessas
Os antônimos se escoram
Os sujeitos se exploram
Arrumando algum jeito de rejeitar a si próprios

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Timbre Oco

A gritaria subsaariana esgoela uma fome impassível
Na minha casa tenho iogurte, vaca assada, feijão preto
A manhã da América é de ovo rei
De entupimento dos sentidos
E de egoísmo

A mendigagem bonita por dentro tem moradia ao ar livre
Tem peito de pedir um troco ou etílico
Envergonha-se de não vacinar seu cão de amarra
De não amar os transeuntes

Já vem lá a carroça urbana, apapelada de angústia
Veio cá o miserável, enveredando pelas vielas
Cantando embargado, andar entortado
Aguardando a doença certa

Como é ávida a coreografia dos necessitados de tudo
Berram, esperneiam, esganiçam e esmolam o pouco
O necessário para o mantimento da vida medíocre
Estalando em suas gargantas o timbre oco

Aclamados homens-gabiru aproveitadores da réstia
Determinados são pelo que ingerem e vestem
Envenenam suas vidas encubados em choças
A lamúria pura de homens concernes

A casta esforçada de excludentes implora
Rangem os dentes por um nada qualquer
Tão vácuo seus estômagos como o futuro é incerto
Permanecem na trilha para timbrar a passagem

Um passado de glória esculpiu o topo no clímax
O luxo, a ostentação e a avareza itinerante
Levado do apogeu ao fio de pedra
Subindo à cabeça o descontrole

Como é ávida a coreografia dos necessitados de tudo
Berram, esperneiam, esganiçam e esmolam o pouco
O necessário para o mantimento da vida medíocre
Expulsando de suas gargantas o timbre oco

Nessas vozes abafadas de todos os medos
Vacilou mais quem não chapou
Não errou quantas vezes quis
E não amou o amor

O dinheiro mal gasto é a grana bem empregada
Esfolada na cana e na carne
No prazer passageiro do retirante
Vendo a bufunfa rapidamente em migalhas

Assim é a comodidade de quem não tem nada
O que já foi dele é dos outros
Sem preocupação com posses e pertences
Nem consigo próprio honestamente

Como é ávida a coreografia dos necessitados de tudo
Berram, esperneiam, esganiçam e esmolam o pouco
O necessário para o mantimento da vida medíocre
Esboçando em suas gargantas o timbre oco

Ter a favela afivelada na cinta
É a segurança choldra do vivente
Conhecer o pútrido e o devasso
A área interna da mente dos ratos

Assim nada é como ter tudo do ruim e do pior
Barraco, resto e trapo esgarçado
Não a casa, comida e roupa lavada
Sim o vício, o jogo e a tara

E ao som do tilintar da lâmina sanguínea
A paria se humilha por uma chance de viver
Matam uns aos outros na combustão do fogo ou no ferro
Morrendo sem ver a culpa do mundo louco,
sem mérito

Como é ávida a coreografia dos necessitados de tudo
Berram, esperneiam, esganiçam e esmolam o pouco
O necessário para o mantimento da vida medíocre
Mumurando de suas gargantas o timbre oco.


Daniel Monteiro

sábado, 2 de agosto de 2008

Poesia Matutina

Com o arfar da aurora
Vem logo o bocejo alegre
Um retumbar novo de vontade
E um remelado bem servido dos olhos

O lirismo do bico do pássaro
varre as incertezas do medo do dia
Inspirando o plano corajoso

Retira o peso vacilante da rede!
Vai-te embora do horizonte da cama!
Verticaliza as metas
Apura o leite branco naturado
Engula o café preto de reforço
Imagine mensagens risonhas às pessoas queridas

Com sorte um verde orvalho do solstício cai-lhe à cabeça
Uma garota escolar lhe esboce um sorriso vivo
E a senhora errante peça um atravessar de rua

Do jornal talvez saltem aos olhos boas notícias
Na condução surgir de repente uma conversa amiga
E aquele antigo flerte matinal dar-lhe bom dia!

Alegre e vívida é sempre a fortaleza manhã
Uma vez que ela é o preparo de todo um dia
É onde o sol amarelo bate com sutileza
E todas as coisas são mais bonitas.
Bom dia!

Daniel Monteiro